20.4.07

Mais Imigração

Oitocentos anos de menoridade imposta e consentida, de analfabetismo programado, de indiferença por conceitos como liberdade, independência intelectual ou integridade; oitocentos de católico e gostoso pessimismo, de tutela inquisitorial, de “o menino não mexa, não olhe, não indague”, só podiam resultar neste humilde e amorfo jeito de ser que caracteriza o português. Inútil exigir a esse resíduo de oitocentos anos qualquer grande esforço ou empenho. Ambição é palavra malvista cá no terrunho, porque um ambicioso é por definição um descontente, alguém que deseja mais e melhor. E os portugueses, nesse aspecto, são o que de mais apático há na Europa: a mediocridade é a luz que nos guia. O português é um ser medianamente assustadiço e contentinho, que com parca e suja água satisfaz a pouca sede que sente.
Este mole temperamento tem correspondência no modo como nada exigimos, de nós próprios ou dos outros. Não nos sentimos com direito a nada porque nada exigimos, também, de nós próprios. Somos todos, enfim, demasiado tímidos, ignaros e gentis para exigir seja o que for. Mas quem não tem direitos está condenado a pedir favores, como diz um poema de Alberto Pimenta. Não é por acaso que os nossos emblemas nacionais são a cunha e a bisbilhotice, e que um dos traços definidores do português é essa mistura de sornice e humildade típica dos indefesos. Mas como podia ser doutra maneira? Como ser exigente e frontal num país onde o conhecimento e a verdade sempre foram alvo de suspeita, ou então confundidos com a esperteza e o parecer bem? Onde toda a gente se satisfaz com pouco, onde um fumo de aparências substitui por baixo preço a estafante grandeza, não há lugar para a emulação. “Mais vale primeiro na tropa, que segundo na Europa,” diz o português, de barriga levantada e telemóvel a brilhar.
Com este longo background de submissão, o português médio não tem na cabeça senão a ideia de se “safar”, de preferência sem o mínimo esforço e por via de qualquer concessão providencial, caia ela de Fátima ou do Estado. Na política, na indústria, na cultura, na sociedade em geral, não há na Europa quem como nós tanto reze a um qualquer totoloto, esse ópio dos indolentes. Procurar o melhor, o bem comum, e construí-lo depois, ou reivindicá-lo, isso sobrepassa as nossas forças, a nossa autoconfiança, minada por oitocentos anos de elites incompetentes, paternalistas, tacanhas e corruptas. Preferimos, então, queixar-nos da vida a exigir dela seja o que for, preferimos que nos roubem a incomodar os srs. ladrões, preferimos morrer a ter chatices, pá. Antes o torpe remanso do “pássaro na mão” (mesmo que empalhado) do que o trabalhoso anseio pelos “dois a voar”; antes o conhecido nada do que o desconfortável “queremos tudo”.
Não admira, portanto, que nos afectem nostalgias por um paizinho providencial, um professor “severo mas justo”, um cão de cego para a nossa pobre miopia, à boa maneira salazarenta. Não admira a passividade, a indiferença pelo saber, a incultura estética e política, a falta de amor pelo país (disfarçada agora com a parolice da “Portuguesa” berrada nos estádios) e o desprezo por si próprios, o desconhecimento das regras básicas do civismo. Ninguém sente o país como seu, ninguém se sente ligado a isto. Para os portugueses, a pátria começa e termina dentro de casa. À porta de casa começa o baldio, a terra de ninguém, que os oportunistas da política e da finança tratam de confiscar, desfigurar e rentabilizar em proveito próprio. Mas quem não deseja a maçada de tomar conta da sua vida, consente que lha tomem. Nem mais. Com tudo isto, os portugueses parecem cada vez mais encolhidos, mais tugueses. E também Tugal vai perdendo sílabas, até que nada reste para soletrar.

José Miguel Silva

Público, 13 de Abril 07

6 comentários:

HenriqueFialho disse...

Tinha lido esse texto e concordo em parte com ele, não creio porém que sejam legítimas algumas generalizações. Nomeadamente as declaras neste trecho: «Ambição é palavra malvista cá no terrunho, porque um ambicioso é por definição um descontente, alguém que deseja mais e melhor. E os portugueses, nesse aspecto, são o que de mais apático há na Europa: a mediocridade é a luz que nos guia». Mas o que me importa agora assinalar é o regresso.

JMS disse...

Olá Henrique.
As generalizações são sempre abusivas, tens razão, e demasiado propícias ao erro. Mas repara que eu não sou cientista social, não escrevo na qualidade de sociólogo ou de filósofo ou de historiador; apenas na de pretenso literato. E o que tem de bom a literatura é que não se confunde com qualquer esfera da verdade ou da cientificidade. Em literatura, nada é proibido (nem sequer escrever mal) e o valor de um texto não pode ser aferido pelo seu grau de adequação à realidade (seja lá isso o que for). Claro que tu podes dizer "mas, chamar literatura a esse teu textinho, não será chamar-lhe demasiado?", ao que eu só posso responder: tens razão; mas olha, faz-se o que se pode.
Abraço.

derkonstrukteur disse...

Estimado José Miguel Silva,

Ante todo permitame disculpar un acto , el cuál he tenido que repetir más de una vez en Portugal y con el cada vez estoy a menos gusto. Me refiero al hecho, sabiendo muy bien las razones que lo generan, de escribirle a una persona de habla portuguesa en espanhol.
Usted se preguntará que tiene que ver esta declaración de mal gusto con su artículo "Mais imigracao" publicado en este blog y que ya había leido en el "Público" durante un viaje a Lisboa el pasado fin de semana.
Vine al Portugal después de haberme decidido, hace más de 8 anhos, a abandonar mi país de origen y haberme ido a Alemania.
Por aquel entonces tenía, como todos los que nos cuestionamos la manera de vida nuestra y la ajena, grandes suenhos y planes mayores. Me fui a Alemania a estudiar Arquitectura y al final, "como son las cosas cuando son del alma", me quedé alli a vivir y a experimentar una forma de vida que resultaba ser bastante diferente a la mia en la Habana.
Hace ya algún tiempo me venía cuestionando si no sería interesante para mi, experimentar otras maneras de vida dentro de un continente al que llamamos Europa y queremos unificar y que me demuestra cada vez más cuan lejos estamos, a pesar de todo, los unos de los otros.
En enero del pasado anho decidí venir al Portugal. Espana era una opción pero no tenía ganas, a veces por sentimentalismos baratos o históricos y otras por miedo a aburrirme en un país en el cual se habla mi lengua materna, de irme a dicho país.
Portugal me parecía fantástico: la lengua muy parecida a la mia (entiendase idioma), el físico de la gente, la manera de vivir y de no vivir, la misma lentitud... no sé... las diferencias con Espanha... sentía una atracción extranha con Portugal.
En tres meses, mi opinión sobre este bello país ( si bien solo en lugares donde no se han construido estos barrios horribles en los que lo primordial es poder estacionar el "carro", elemento importantísimo en la cultura popular lusitana) se ha degradado desenfrenadamente.
Y usted se preguntará a que viene toda esta historia...
Muy simple: su artículo es la suma más que mejorada de mis experiencias en Portugal en los últimos tres meses. Me llevo con tristeza una imagen pésima de un Portugal mediocre e inconsciente que no hace más que destruir, consumir y acaparar recursos sin sentido y que cada vez está más cerca de Africa que de Europa.
Cuáles son las razones que hacen que los portugueses, por ejemplo en la Autopista o en el tránsito diario sean tan irresponsables?
Me llevo la impresión, la dolorosa impresión, de haber sido ignorado por la "Loja do Citadao", mentido por mis conocidos y robado por instituciones tan de renombre como el "Banco do Espirito Santo"...
Cómo cambiar todo esto? Cómo hacer que el portugués medio reaccione, ante un artículo como "Mais imigracao", críticamente?
Como abrirle los ojos y mostrar cuantas posibilidades tiene un país que goza de una posición geográfica excelente en la Comunidad Europea y que tiene, hoy más que nunca, la inmensa posibilidad de acabar con esos "800 anhos de menoridade imposta e consentida" a los que se refiere usted en su artículo?
Cómo sacarles de la casa? Cómo mostrarles que el valor de un "Mercedes Benz" no sobrepasa los dos anhos y que lo que cuenta son la educación, un sistema médico que funcione y una sociedad en la que es mejor navegar juntos que querer sobrepasar siempre a todo el que nos rodea?
Quedo sin respuestas y le agradezco enormemente el haber encontrado su artículo y tener el placer de haber leído de manos de un portugués, lo que ya había comprobado personalmente y reprimido por temor a ofender a un pueblo, que no es mi pueblo de origen.

Muchas gracias.

Atentamente,
Rigel García Martín

JMS disse...

Caro Rigel Martín


O problema é que os portugueses sempre estiveram muito isolados, encravados entre o "inimigo" castelhano e a imensidão do Atlântico. E sozinho ninguém aprende nada. Um isolamento, esse, agravado pela tradição imobilista e asfixiante do catolicismo, cujo fardo só foi aliviado depois do 25 de Abril. Demasiado afastados da Europa democrática, laica, burguesa, humanista, e rica, ficámos assim entregues à exclusiva influência dos padres, e se há coisa que a Igreja Católica nunca promoveu foi a crítica, a análise racional ou a independência de espírito. Daí os "brandos costumes", o medo do conflito, a apatia política, o incivismo. Também não nos podemos esquecer que a democracia só cá chegou há vinte anos. Sair da barbárie é um processo longo, demorado. A única solução rápida seria talvez a de enviar os portugueses todos para a Holanda durante um ano, para um curso de boas maneiras e boas práticas, na esperança de que voltassem de lá menos toscos.
Obrigado pelo comentário.

Rafael disse...

caro JMS, se há coisa que os portugueses nunca gostaram foi de isolar-se. Durante toda a Idade Média, as movimentações diplomáticas dos reis portugueses demonstravam que eles eram dos mais cosmopolitas do mundo. E depois vieram os descobrimentos...
Desde o séc. XVI até aos dias de hoje, Portugal foi um manancial de gentes para TODO o planeta. Mas não só. Sempre, sim acreditem houve muita imigração para Portugal: ciganos, galegos, flamengos, ingleses, franceses, africanos (sem esquecer os inumeros "mouros" e judeus assimilados com o tempo), arménios, castelhanos, etc.
O nosso problema, sabem qual é? É olhar para a política colonial do Salazar do "orgulhosamente sós" e pensar que sempre fomos e continuamos assim.
Isso sim é triste e revela o nosso pior... a ignorância.

Quanto ao nosso amigo cubano aconselho umas visitas pelo sul da Itália(sobretudo a costa do Adriático, onde há cidades onde a grande inovação é o eléctrico e aceder à internet é uma aventura), ou mesmo por Espanha, isso é claro se conseguir desligar-se desses complexos de colonizado.
Com a sua pronúncia acentuada não demorará a sentir o calor desses seus povos irmãos.
Bem-haja

JMS disse...

Rafael

Claro que as elites sempre viajaram muito, e que arraia-miúda sempre emigrou muito. Mas isso não impede que Portugal sempre tenha sido um país avesso à inovação e à aprendizagem. Claro, que também houve o período dos Descobrimentos, mas isso foi um oásis, produto de meia dúzia de dirigentes dotados de visão estratégica. A partir de D. João III e da introdução da Inquisição no país, o controlo da igreja sobre a educação e as mentalidades foi-se reforçando cada vez mais. E foi esse espírito de sacristia, de controle das liberdades, o que formatou a mentalidade portuguesa. No século XIX, em vez de acompanharem os movimentos liberais (industrialização, alfabetização, ampliação das liberdades políticas, etc.) os portugueses deixaram-se ficar pela boa e velha modorra, enquanto a classe política se entretinha nas suas ridículas lutas de galos e em servir-se da política para fins privados. Como hoje ainda.
O marquês do Pombal, com todos os seus defeitos, tentou introduzir no país um sopro de inovação, e foi nessa latura que os chamados "estrangeirados" tiveram alguma influência na política nacional. Mas depois deu-se a Rev. Francesa, e os detentores do poder e do privilégio acagaçaram-se, tendo sido necessário uma guerra civil para se introduzir no país algumas tímidas reformas liberais. Mas onde não existe espírito de iniciativa, nem gosto pela liberdade, nem interesse pelo bem-comum, o resultado é a estagnação, pelo que as reformas liberais se reduziram ao "mudar algo para que tudo fique na mesma" defendido pelo Principe de Salina em o "Leopardo".
Tem razão quanto à Itália rural, a do sul. Mas o norte de Itália, em termos mentais, sempre teve mais de alemão do que de italiano.