(Nunca me cansarei de o repetir: OS THE BAND OF HOLY JOY FIZERAM A MELHOR MÚSICA DOS ANOS 80.)
9.1.08
The Band of Holy Joy - "What The Moon Saw"
(Nâo é o melhor dos Holy Joy, é apenas o possível, num mundo onde talento rima com obscuridade e só os piores conhecem a chave do sucesso.)
8.1.08
A "democracia" à maneira liberal # 3, ou O que vale uma promessa eleitoral
"José Sócrates não vai propor referendo ao Tratado de Lisboa"
PÚBLICO, 08.01.2008
PÚBLICO, 08.01.2008
7.1.08
5.1.08
A costa já está. Para o interior agora, "rapidamente e em força"
"Interior rural é o próximo alvo do turismo do Algarve"
Público, 4-1-08
Público, 4-1-08
4.1.08
Arquitectura tradicional portuguesa
Um meu projecto antigo para este blogue era a publicação de fotos de casas portuguesas tradicionais, que a proverbial estupidez lusitana tem vindo a demolir de forma acelerada nos últimos trinta anos. Em nenhum país do mundo se destrói tanta beleza por segundo, pois em nenhum país do mundo existe tanta beleza arquitectónica por metro quadrado. Não falo, evidentemente, de arquitectura monumental, como igrejas ou palácios, pois nesse aspecto qualquer vilória italiana tem mais para mostrar do que Portugal inteiro; falo antes de pequenas ou médias casas de habitação, invariavelmente construídas com materiais da região onde estão inseridas, e com um sentido das proporções e do enquadramento paisagístico que a boçal arquitectura moderna despreza ou ignora quase por completo. Não sei como pôde tal milagre acontecer, mas no panorama da cultura portuguesa é para mim evidente que a principal manifestação de um génio autóctone, se existe, é na arquitectura tradicional que o podemos encontrar. O que seria, digamos, a literatura portuguesa sem a influência latina, provençal, italiana, castelhana, francesa ou inglesa? Algo de inconcebível. E o mesmo em relação a todas as outras artes, incluindo a arquitectura monumental (Alcobaça, por exemplo, por esplêndido que seja, é só uma das centenas de catedrais góticas espalhadas pela Europa). Mas uma casa agrícola minhota ou beirã, um “monte” alentejano, uma casa burguesa do Porto antigo, são verdadeiros prodígios, não só de equilíbrio formal, como de adaptação às condições locais. Pequenos poemas em pedra, às vezes. E ninguém no seu perfeito sentido estético poderá dizer que os equivalentes espanhóis, italianos, alemães ou chineses deste tipo de estrutura sejam melhor concebidos.
E, como não podia deixar de ser (pois para alguma coisa somos portugueses), é precisamente o melhor da cultura nacional que a ignorância e a incúria do Estado e dos particulares tem vindo a destruir com tenaz e paciente sanha. Arrasam-se casas levantadas com gosto e com técnicas de construção que levaram séculos a apurar, para no seu lugar construir pardieiros de luxo, cuja visão nos gela o sangue. A desertificação do interior é em parte responsável por esse abandono, mas como justificar que até nas colmeias urbanas isso aconteça? Estupidez pura.
O projecto de fotografar casas antigas passava pois pela intenção de um requiem ao que de mais autêntico criaram os portugueses, em oitocentos e cinquenta anos de pobreza. Por diversos motivos, nunca cheguei a iniciá-lo, embora more num dos distritos onde mais abunda a bela arquitectura tradicional. Felizmente, há quem se tenha lembrado do mesmo, e blogues como este , este , este e este , além de prestarem um verdadeiro serviço público, acabam por ser um bálsamo para os olhos. Que se mantenham por muitos anos.
E, como não podia deixar de ser (pois para alguma coisa somos portugueses), é precisamente o melhor da cultura nacional que a ignorância e a incúria do Estado e dos particulares tem vindo a destruir com tenaz e paciente sanha. Arrasam-se casas levantadas com gosto e com técnicas de construção que levaram séculos a apurar, para no seu lugar construir pardieiros de luxo, cuja visão nos gela o sangue. A desertificação do interior é em parte responsável por esse abandono, mas como justificar que até nas colmeias urbanas isso aconteça? Estupidez pura.
O projecto de fotografar casas antigas passava pois pela intenção de um requiem ao que de mais autêntico criaram os portugueses, em oitocentos e cinquenta anos de pobreza. Por diversos motivos, nunca cheguei a iniciá-lo, embora more num dos distritos onde mais abunda a bela arquitectura tradicional. Felizmente, há quem se tenha lembrado do mesmo, e blogues como este , este , este e este , além de prestarem um verdadeiro serviço público, acabam por ser um bálsamo para os olhos. Que se mantenham por muitos anos.
3.1.08
O Triunfo dos Poucos
Uma mulher morre num corredor de hospital, quatro horas depois de lá ter entrado, sem ter experimentado a felicidade de saber de que morria, pois não chegou a ser vista por médico nenhum. Urgências sobrecarregadas, alega a direcção do hospital; a que não será alheio o furioso processo de encerramento de blocos de urgência, acrescenta a Ordem dos Médicos.

Enquanto os portugueses não perceberam que a democracia foi sequestrada por esta récua de inimigos públicos que há trinta anos nos governa, nada vai mudar. O partido único (mas dividido em duas alas, para melhor simulação) no poder desde o 25 de Abril já não sente a necessidade de fingir sermos nós, povo, o seu eleitorado, uma vez que não é o o zé-comum quem lhes financia a campanha eleitoral e respectiva eleição.
Coadjuvados pela perpétua chusma de funcionários intelectuais, tão necessária, em democracia, para o controle da opinião pública, os verdadeiros dirigentes do país sabem organizar-se de modo a garantir os preciosos ofícios dos seus políticos. Quanto a estes, não passam de actores num espectáculo de marionetas cuja produção há muito não controlam. Transitam do estado para as empresas e das empresas para o estado, negociando invariavelmente contra o interesse público (isto é, geral) e em favor de interesses particulares (a começar pelos seus, claro).
No meio de todo este circo patético, a única coisa que não se percebe é por que é que ainda fingem eleições, com a mentira do sufrágio popular e a imagem do povo como fonte do poder. Mais valia elegerem os deputados nos conselhos de administração das 100 maiores empresas – ficava-nos mais barato.
Quanto à senhora que morreu, não tinha qualquer vínculo familiar com o ministro da saúde ou com qualquer outro ministro, deste ou de anteriores governos desde a fundação da nacionalidade. Era apenas mais um dos parvos que ainda pensam que os políticos são eleitos por nós e para governar em função do bem comum. Uma ilusão, essa, que só os mais ingénuos conseguem ainda sustentar. Em países onde o processo de sequestro da democracia pelos detentores do poder económico está mais avançado (como é o caso dos EUA), metade dos eleitores já nem se dá ao trabalho de ir votar. De facto, se a única escolha possível é entre duas alas de um mesmo partido, é indiferente o nome do vencedor.
Termino com um dos meus votos para o corrente ano: que o ministro da saúde seja acometido por um badagaio doloroso e generalizado, que o leve a quatro horas de internamento num corredor de hospital, seguido de óbito e respectiva purificação política.

Enquanto os portugueses não perceberam que a democracia foi sequestrada por esta récua de inimigos públicos que há trinta anos nos governa, nada vai mudar. O partido único (mas dividido em duas alas, para melhor simulação) no poder desde o 25 de Abril já não sente a necessidade de fingir sermos nós, povo, o seu eleitorado, uma vez que não é o o zé-comum quem lhes financia a campanha eleitoral e respectiva eleição.
Coadjuvados pela perpétua chusma de funcionários intelectuais, tão necessária, em democracia, para o controle da opinião pública, os verdadeiros dirigentes do país sabem organizar-se de modo a garantir os preciosos ofícios dos seus políticos. Quanto a estes, não passam de actores num espectáculo de marionetas cuja produção há muito não controlam. Transitam do estado para as empresas e das empresas para o estado, negociando invariavelmente contra o interesse público (isto é, geral) e em favor de interesses particulares (a começar pelos seus, claro).
No meio de todo este circo patético, a única coisa que não se percebe é por que é que ainda fingem eleições, com a mentira do sufrágio popular e a imagem do povo como fonte do poder. Mais valia elegerem os deputados nos conselhos de administração das 100 maiores empresas – ficava-nos mais barato.
Quanto à senhora que morreu, não tinha qualquer vínculo familiar com o ministro da saúde ou com qualquer outro ministro, deste ou de anteriores governos desde a fundação da nacionalidade. Era apenas mais um dos parvos que ainda pensam que os políticos são eleitos por nós e para governar em função do bem comum. Uma ilusão, essa, que só os mais ingénuos conseguem ainda sustentar. Em países onde o processo de sequestro da democracia pelos detentores do poder económico está mais avançado (como é o caso dos EUA), metade dos eleitores já nem se dá ao trabalho de ir votar. De facto, se a única escolha possível é entre duas alas de um mesmo partido, é indiferente o nome do vencedor.
Termino com um dos meus votos para o corrente ano: que o ministro da saúde seja acometido por um badagaio doloroso e generalizado, que o leve a quatro horas de internamento num corredor de hospital, seguido de óbito e respectiva purificação política.
2.1.08
28.12.07
Lapidário # 7
"Mas também o que é que têm para dizer jovens escritores, pensei eu, que imaginam saber tudo e que afinal só são capazes de achar tudo ridículo, sem conseguirem justificar por quê ridículo. Disso só se apercebem muito mais tarde, pensei eu; primeiro acham tudo ridículo sem saber por quê, isso são eles, só mais tarde é que sabem por quê, mas então já não o dizem, porque já para isso não tênm qualquer razão. Era a gargalhada tola e oca e estúpida inteiramente característica desta juventude dos nossos perversos e estúpidos e perigosos anos oitenta que os dois soltavam, pensei eu. Eles riem às gargalhadas e acham tudo ridículo e ainda nem sequer publicaram um único livro, pensei eu, como tu há trinta anos. Eles só têm a sua gargalhada, nada mais, e dão-se por satisfeitos com essa sua gargalhada. Eles só têm essa gargalhada e toda a catástrofe da vida ainda na sua frente, pensei eu. Eles só têm essa gargalhada e nem sequer uma justificação para ela."
Thomas Bernhard, Derrubar Árvores, Assírio & Alvim.
Thomas Bernhard, Derrubar Árvores, Assírio & Alvim.
27.12.07
Contrabandistas de todo o mundo, uni-vos.
"Ministério das Finanças tenta travar venda de tabaco em 2008 a preços deste ano."
Público, 27 Dez. 07
Público, 27 Dez. 07
21.12.07
17.12.07
14.12.07
É o que tem a realidade, ser deprimente.
Concorda com a instalação de câmaras de videovigilância nas ruas?
1 – Sim 63%
2 – Não 13%
3 – Só em locais com índices de criminalidade elevados. 25%
Inquérito do jornal Público, 14 de Dez. 07
Eis para que serve a arte de brandir espantalhos: incutir o medo no coração dos isolados. Longa e devidamente acagaçado pela diversão noticiosa, intelectualmente anulado por uma escolaridade de repetição, o anestesiado cidadão comum começa por não perceber nada do que lhe cai em cima, e acaba a exigir um guarda-chuva de aço inoxidável, com antenas que o ponham em comunicação com um qualquer Papá. Dez milhões de insensíveis, dez milhões de cobardes, cada um com o seu Salazar de barro na cristaleira do entendimento. Em vez de uma sociedade de irmãos, ou vá lá de bons vizinhos, uma sociedade de filhos eternamente dependentes, de menores bunkerizados. Cada um na sua noite e deus por todos. Tudo pela segurança, contra a segurança nada. Autoridade sempre. Viva o cheque em branco. Abaixo a liberdade.
1 – Sim 63%
2 – Não 13%
3 – Só em locais com índices de criminalidade elevados. 25%
Inquérito do jornal Público, 14 de Dez. 07
Eis para que serve a arte de brandir espantalhos: incutir o medo no coração dos isolados. Longa e devidamente acagaçado pela diversão noticiosa, intelectualmente anulado por uma escolaridade de repetição, o anestesiado cidadão comum começa por não perceber nada do que lhe cai em cima, e acaba a exigir um guarda-chuva de aço inoxidável, com antenas que o ponham em comunicação com um qualquer Papá. Dez milhões de insensíveis, dez milhões de cobardes, cada um com o seu Salazar de barro na cristaleira do entendimento. Em vez de uma sociedade de irmãos, ou vá lá de bons vizinhos, uma sociedade de filhos eternamente dependentes, de menores bunkerizados. Cada um na sua noite e deus por todos. Tudo pela segurança, contra a segurança nada. Autoridade sempre. Viva o cheque em branco. Abaixo a liberdade.
11.12.07
Poluição Visual
Cada vez é mais difícil manter a vista sã, quando até os bloggers anticapitalistas (am I wrong?)
não vêem incompatibilidade entre promover (no lado esquerdo) a participação política, a liberdade e a cidadania, e (no direito) o desagregante plano poupança-reforma de uma instituição bancária. Não há contradições, como diria a outra, e todos os discursos se equivalem no vazio das transacções verbais. Deve ser a isto que se chama uma esquerda "descomplexada" e "pós-moderna". Deve ser. Mas sendo assim, que faz o Daniel Oliveira fora do PS? E que faz (ou fazia) o blogue Arrastão na minha lista de recomendações? Poluição visual? Não, obrigado.
não vêem incompatibilidade entre promover (no lado esquerdo) a participação política, a liberdade e a cidadania, e (no direito) o desagregante plano poupança-reforma de uma instituição bancária. Não há contradições, como diria a outra, e todos os discursos se equivalem no vazio das transacções verbais. Deve ser a isto que se chama uma esquerda "descomplexada" e "pós-moderna". Deve ser. Mas sendo assim, que faz o Daniel Oliveira fora do PS? E que faz (ou fazia) o blogue Arrastão na minha lista de recomendações? Poluição visual? Não, obrigado.
10.12.07
Vergonha (ou orgulho) em ser português
Chamava-se Vítor Nascimento e dedicava-se ao banditismo romântico, misto de vagabundagem e pequena delinquência. Em cada coração via também uma carteira, em cada carteira um coração. Nunca roubava um sem a outra. Uma espécie de M. Verdoux, menos violento. Exercia em França, donde regressava de longe a longe, quando as coisas corriam mal. Num desses regressos, tentou incutir-me algumas luzes a respeito do ofício. Sem grande vocação para a delinquência, pouco retive desses ensinamentos. Mas de uma coisa me lembro, de ele me dizer que em França dava pelo nome de "Marlon", suposto brasileiro de S. Paulo. Por que não assumir a sua naturalidade portuguesa?, perguntava eu ingenuamente. Porque em França, esclarecia Marlon os meus vint'anos, um delinquente sentimental perderia toda a credibilidade se revelasse a sua condição de português. Ninguém o levaria a sério. Desanexado da vassoura e da colher de trolha, um português, de Vilar Formoso para a frente, só pode ser uma fonte de embaraço e gargalhadas, acreditava Vítor N.
Nunca percebi muito bem como se pode sentir orgulho ou vergonha por um facto tão anódino e acidental como a nacionalidade. Sempre achei que ter nascido em Portugal podia constituir um privilégio ou uma desvantagem relativas, dependendo do lugar geográfico e político donde se observa, mas nunca me ocorreu tingir de valores morais tal circunstância, razão pela qual o nacionalismo sempre me pareceu uma variedade da miopia, ou uma espécie de plebeização do exclusivismo aristocrático próprio do ancien régime. Para um individualista, a nacionalidade é tão irrelevante como o sexo, a classe ou a cor da pele: para onde quer que olhe, só vê gente e nada mais, em toda a parte o mesmo nódulo de necessidades. Um dos riscos que corre quem sofreu o acidente de nascer italiano ou inglês ou americano, por exemplo, é o de acreditar que fora das suas fronteiras começa o inferno, a barbárie, a periferia do mundo; ao passo que uma das vantagens (a única?) de se nascer na periferia é não permitir grande lugar para imaginárias presunções de grandeza. A desvantagem, já se vê, é o provincianismo de quem acha que lá fora é que é bom, uma noção geralmente acompanhada pela crença de que, enquanto colectivo (senão enquanto indivíduos!), somos inferiores a franceses, ingleses, dinamarqueses. Curiosamente, esse complexo de inferioridade parece manifestar-se sobretudo nas classes ditas instruídas. É ver como na blogosfera , por exemplo, abundam as patologias de embevecimento por tudo o que vem da América ou do Reino Unido. Qualquer escritor ou jornalista anglo-saxónico, por mais insignificante que seja, encontra sempre por cá uma legião de admiradores e citadores. Há quem não perca pitada do que literária ou jornalisticamente se profere em Londres ou Washington, quem se consideraria inferiorizado se tivesse que confessar que não leu o último Roth ou o último New York Times; há quem mais facilmente admitiria não ter lido Raul Brandão do que Zadie Smith ou coisa que a valha; quem, enfim, confunda civilização com a leitura do Washington Post (como se o W.P. fosse melhor do que o Público ou o Correio da Manhã!) ou da CNN News. Essa terapêutica afectação por parecer estrangeiro, por não parecer de cá, é tão ridícula quanto inofensiva; que lhes aproveite, se contribui para a auto-estima de algumas brônzeas almas, carecentes de lustro.
Mas assim como as pessoas não são todas iguais (o que não significa, ó liberalóides, que não devam ter exactamente os mesmos direitos), o mesmo se passa com os países. Há sítios mais felizes para se nascer, outros menos, outros nada. E se é absurdo ter vergonha (ou orgulho) em ser português, é compreensível, é quase inevitável sentir-se vergonha do país que nos calhou em sorte (uma vergonha, note-se, que não nos atinge – ou não nos deveria atingir – individual e pessoalmente) quando assistimos a uma reportagem como a que ontem passou na TVI, sobre crianças portuguesas com paralisia cerebral que têm que se deslocar a um país do 3º mundo (Cuba) em busca de um tratamento que as autoridades médicas lusas consideram talvez demasiado dispendioso para ser dispensado a meros danos colaterais da guerra de classes. Parafraseando uma das minhas anedotas preferidas:
- “Tiveste o azar de nascer com paralisia cerebral?” (pergunta o sarcástico Deus da religião do capital) “Hmm. E um BI português, tens?”,
- “Isso não, felizmente”, responde o infeliz,
- “Então - zbling! - toma lá um.”
Nunca percebi muito bem como se pode sentir orgulho ou vergonha por um facto tão anódino e acidental como a nacionalidade. Sempre achei que ter nascido em Portugal podia constituir um privilégio ou uma desvantagem relativas, dependendo do lugar geográfico e político donde se observa, mas nunca me ocorreu tingir de valores morais tal circunstância, razão pela qual o nacionalismo sempre me pareceu uma variedade da miopia, ou uma espécie de plebeização do exclusivismo aristocrático próprio do ancien régime. Para um individualista, a nacionalidade é tão irrelevante como o sexo, a classe ou a cor da pele: para onde quer que olhe, só vê gente e nada mais, em toda a parte o mesmo nódulo de necessidades. Um dos riscos que corre quem sofreu o acidente de nascer italiano ou inglês ou americano, por exemplo, é o de acreditar que fora das suas fronteiras começa o inferno, a barbárie, a periferia do mundo; ao passo que uma das vantagens (a única?) de se nascer na periferia é não permitir grande lugar para imaginárias presunções de grandeza. A desvantagem, já se vê, é o provincianismo de quem acha que lá fora é que é bom, uma noção geralmente acompanhada pela crença de que, enquanto colectivo (senão enquanto indivíduos!), somos inferiores a franceses, ingleses, dinamarqueses. Curiosamente, esse complexo de inferioridade parece manifestar-se sobretudo nas classes ditas instruídas. É ver como na blogosfera , por exemplo, abundam as patologias de embevecimento por tudo o que vem da América ou do Reino Unido. Qualquer escritor ou jornalista anglo-saxónico, por mais insignificante que seja, encontra sempre por cá uma legião de admiradores e citadores. Há quem não perca pitada do que literária ou jornalisticamente se profere em Londres ou Washington, quem se consideraria inferiorizado se tivesse que confessar que não leu o último Roth ou o último New York Times; há quem mais facilmente admitiria não ter lido Raul Brandão do que Zadie Smith ou coisa que a valha; quem, enfim, confunda civilização com a leitura do Washington Post (como se o W.P. fosse melhor do que o Público ou o Correio da Manhã!) ou da CNN News. Essa terapêutica afectação por parecer estrangeiro, por não parecer de cá, é tão ridícula quanto inofensiva; que lhes aproveite, se contribui para a auto-estima de algumas brônzeas almas, carecentes de lustro.
Mas assim como as pessoas não são todas iguais (o que não significa, ó liberalóides, que não devam ter exactamente os mesmos direitos), o mesmo se passa com os países. Há sítios mais felizes para se nascer, outros menos, outros nada. E se é absurdo ter vergonha (ou orgulho) em ser português, é compreensível, é quase inevitável sentir-se vergonha do país que nos calhou em sorte (uma vergonha, note-se, que não nos atinge – ou não nos deveria atingir – individual e pessoalmente) quando assistimos a uma reportagem como a que ontem passou na TVI, sobre crianças portuguesas com paralisia cerebral que têm que se deslocar a um país do 3º mundo (Cuba) em busca de um tratamento que as autoridades médicas lusas consideram talvez demasiado dispendioso para ser dispensado a meros danos colaterais da guerra de classes. Parafraseando uma das minhas anedotas preferidas:
- “Tiveste o azar de nascer com paralisia cerebral?” (pergunta o sarcástico Deus da religião do capital) “Hmm. E um BI português, tens?”,
- “Isso não, felizmente”, responde o infeliz,
- “Então - zbling! - toma lá um.”
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