14.12.07
É o que tem a realidade, ser deprimente.
Concorda com a instalação de câmaras de videovigilância nas ruas?
1 – Sim 63%
2 – Não 13%
3 – Só em locais com índices de criminalidade elevados. 25%
Inquérito do jornal Público, 14 de Dez. 07
Eis para que serve a arte de brandir espantalhos: incutir o medo no coração dos isolados. Longa e devidamente acagaçado pela diversão noticiosa, intelectualmente anulado por uma escolaridade de repetição, o anestesiado cidadão comum começa por não perceber nada do que lhe cai em cima, e acaba a exigir um guarda-chuva de aço inoxidável, com antenas que o ponham em comunicação com um qualquer Papá. Dez milhões de insensíveis, dez milhões de cobardes, cada um com o seu Salazar de barro na cristaleira do entendimento. Em vez de uma sociedade de irmãos, ou vá lá de bons vizinhos, uma sociedade de filhos eternamente dependentes, de menores bunkerizados. Cada um na sua noite e deus por todos. Tudo pela segurança, contra a segurança nada. Autoridade sempre. Viva o cheque em branco. Abaixo a liberdade.
1 – Sim 63%
2 – Não 13%
3 – Só em locais com índices de criminalidade elevados. 25%
Inquérito do jornal Público, 14 de Dez. 07
Eis para que serve a arte de brandir espantalhos: incutir o medo no coração dos isolados. Longa e devidamente acagaçado pela diversão noticiosa, intelectualmente anulado por uma escolaridade de repetição, o anestesiado cidadão comum começa por não perceber nada do que lhe cai em cima, e acaba a exigir um guarda-chuva de aço inoxidável, com antenas que o ponham em comunicação com um qualquer Papá. Dez milhões de insensíveis, dez milhões de cobardes, cada um com o seu Salazar de barro na cristaleira do entendimento. Em vez de uma sociedade de irmãos, ou vá lá de bons vizinhos, uma sociedade de filhos eternamente dependentes, de menores bunkerizados. Cada um na sua noite e deus por todos. Tudo pela segurança, contra a segurança nada. Autoridade sempre. Viva o cheque em branco. Abaixo a liberdade.
11.12.07
Poluição Visual
Cada vez é mais difícil manter a vista sã, quando até os bloggers anticapitalistas (am I wrong?)
não vêem incompatibilidade entre promover (no lado esquerdo) a participação política, a liberdade e a cidadania, e (no direito) o desagregante plano poupança-reforma de uma instituição bancária. Não há contradições, como diria a outra, e todos os discursos se equivalem no vazio das transacções verbais. Deve ser a isto que se chama uma esquerda "descomplexada" e "pós-moderna". Deve ser. Mas sendo assim, que faz o Daniel Oliveira fora do PS? E que faz (ou fazia) o blogue Arrastão na minha lista de recomendações? Poluição visual? Não, obrigado.
não vêem incompatibilidade entre promover (no lado esquerdo) a participação política, a liberdade e a cidadania, e (no direito) o desagregante plano poupança-reforma de uma instituição bancária. Não há contradições, como diria a outra, e todos os discursos se equivalem no vazio das transacções verbais. Deve ser a isto que se chama uma esquerda "descomplexada" e "pós-moderna". Deve ser. Mas sendo assim, que faz o Daniel Oliveira fora do PS? E que faz (ou fazia) o blogue Arrastão na minha lista de recomendações? Poluição visual? Não, obrigado.
10.12.07
Vergonha (ou orgulho) em ser português
Chamava-se Vítor Nascimento e dedicava-se ao banditismo romântico, misto de vagabundagem e pequena delinquência. Em cada coração via também uma carteira, em cada carteira um coração. Nunca roubava um sem a outra. Uma espécie de M. Verdoux, menos violento. Exercia em França, donde regressava de longe a longe, quando as coisas corriam mal. Num desses regressos, tentou incutir-me algumas luzes a respeito do ofício. Sem grande vocação para a delinquência, pouco retive desses ensinamentos. Mas de uma coisa me lembro, de ele me dizer que em França dava pelo nome de "Marlon", suposto brasileiro de S. Paulo. Por que não assumir a sua naturalidade portuguesa?, perguntava eu ingenuamente. Porque em França, esclarecia Marlon os meus vint'anos, um delinquente sentimental perderia toda a credibilidade se revelasse a sua condição de português. Ninguém o levaria a sério. Desanexado da vassoura e da colher de trolha, um português, de Vilar Formoso para a frente, só pode ser uma fonte de embaraço e gargalhadas, acreditava Vítor N.
Nunca percebi muito bem como se pode sentir orgulho ou vergonha por um facto tão anódino e acidental como a nacionalidade. Sempre achei que ter nascido em Portugal podia constituir um privilégio ou uma desvantagem relativas, dependendo do lugar geográfico e político donde se observa, mas nunca me ocorreu tingir de valores morais tal circunstância, razão pela qual o nacionalismo sempre me pareceu uma variedade da miopia, ou uma espécie de plebeização do exclusivismo aristocrático próprio do ancien régime. Para um individualista, a nacionalidade é tão irrelevante como o sexo, a classe ou a cor da pele: para onde quer que olhe, só vê gente e nada mais, em toda a parte o mesmo nódulo de necessidades. Um dos riscos que corre quem sofreu o acidente de nascer italiano ou inglês ou americano, por exemplo, é o de acreditar que fora das suas fronteiras começa o inferno, a barbárie, a periferia do mundo; ao passo que uma das vantagens (a única?) de se nascer na periferia é não permitir grande lugar para imaginárias presunções de grandeza. A desvantagem, já se vê, é o provincianismo de quem acha que lá fora é que é bom, uma noção geralmente acompanhada pela crença de que, enquanto colectivo (senão enquanto indivíduos!), somos inferiores a franceses, ingleses, dinamarqueses. Curiosamente, esse complexo de inferioridade parece manifestar-se sobretudo nas classes ditas instruídas. É ver como na blogosfera , por exemplo, abundam as patologias de embevecimento por tudo o que vem da América ou do Reino Unido. Qualquer escritor ou jornalista anglo-saxónico, por mais insignificante que seja, encontra sempre por cá uma legião de admiradores e citadores. Há quem não perca pitada do que literária ou jornalisticamente se profere em Londres ou Washington, quem se consideraria inferiorizado se tivesse que confessar que não leu o último Roth ou o último New York Times; há quem mais facilmente admitiria não ter lido Raul Brandão do que Zadie Smith ou coisa que a valha; quem, enfim, confunda civilização com a leitura do Washington Post (como se o W.P. fosse melhor do que o Público ou o Correio da Manhã!) ou da CNN News. Essa terapêutica afectação por parecer estrangeiro, por não parecer de cá, é tão ridícula quanto inofensiva; que lhes aproveite, se contribui para a auto-estima de algumas brônzeas almas, carecentes de lustro.
Mas assim como as pessoas não são todas iguais (o que não significa, ó liberalóides, que não devam ter exactamente os mesmos direitos), o mesmo se passa com os países. Há sítios mais felizes para se nascer, outros menos, outros nada. E se é absurdo ter vergonha (ou orgulho) em ser português, é compreensível, é quase inevitável sentir-se vergonha do país que nos calhou em sorte (uma vergonha, note-se, que não nos atinge – ou não nos deveria atingir – individual e pessoalmente) quando assistimos a uma reportagem como a que ontem passou na TVI, sobre crianças portuguesas com paralisia cerebral que têm que se deslocar a um país do 3º mundo (Cuba) em busca de um tratamento que as autoridades médicas lusas consideram talvez demasiado dispendioso para ser dispensado a meros danos colaterais da guerra de classes. Parafraseando uma das minhas anedotas preferidas:
- “Tiveste o azar de nascer com paralisia cerebral?” (pergunta o sarcástico Deus da religião do capital) “Hmm. E um BI português, tens?”,
- “Isso não, felizmente”, responde o infeliz,
- “Então - zbling! - toma lá um.”
Nunca percebi muito bem como se pode sentir orgulho ou vergonha por um facto tão anódino e acidental como a nacionalidade. Sempre achei que ter nascido em Portugal podia constituir um privilégio ou uma desvantagem relativas, dependendo do lugar geográfico e político donde se observa, mas nunca me ocorreu tingir de valores morais tal circunstância, razão pela qual o nacionalismo sempre me pareceu uma variedade da miopia, ou uma espécie de plebeização do exclusivismo aristocrático próprio do ancien régime. Para um individualista, a nacionalidade é tão irrelevante como o sexo, a classe ou a cor da pele: para onde quer que olhe, só vê gente e nada mais, em toda a parte o mesmo nódulo de necessidades. Um dos riscos que corre quem sofreu o acidente de nascer italiano ou inglês ou americano, por exemplo, é o de acreditar que fora das suas fronteiras começa o inferno, a barbárie, a periferia do mundo; ao passo que uma das vantagens (a única?) de se nascer na periferia é não permitir grande lugar para imaginárias presunções de grandeza. A desvantagem, já se vê, é o provincianismo de quem acha que lá fora é que é bom, uma noção geralmente acompanhada pela crença de que, enquanto colectivo (senão enquanto indivíduos!), somos inferiores a franceses, ingleses, dinamarqueses. Curiosamente, esse complexo de inferioridade parece manifestar-se sobretudo nas classes ditas instruídas. É ver como na blogosfera , por exemplo, abundam as patologias de embevecimento por tudo o que vem da América ou do Reino Unido. Qualquer escritor ou jornalista anglo-saxónico, por mais insignificante que seja, encontra sempre por cá uma legião de admiradores e citadores. Há quem não perca pitada do que literária ou jornalisticamente se profere em Londres ou Washington, quem se consideraria inferiorizado se tivesse que confessar que não leu o último Roth ou o último New York Times; há quem mais facilmente admitiria não ter lido Raul Brandão do que Zadie Smith ou coisa que a valha; quem, enfim, confunda civilização com a leitura do Washington Post (como se o W.P. fosse melhor do que o Público ou o Correio da Manhã!) ou da CNN News. Essa terapêutica afectação por parecer estrangeiro, por não parecer de cá, é tão ridícula quanto inofensiva; que lhes aproveite, se contribui para a auto-estima de algumas brônzeas almas, carecentes de lustro.
Mas assim como as pessoas não são todas iguais (o que não significa, ó liberalóides, que não devam ter exactamente os mesmos direitos), o mesmo se passa com os países. Há sítios mais felizes para se nascer, outros menos, outros nada. E se é absurdo ter vergonha (ou orgulho) em ser português, é compreensível, é quase inevitável sentir-se vergonha do país que nos calhou em sorte (uma vergonha, note-se, que não nos atinge – ou não nos deveria atingir – individual e pessoalmente) quando assistimos a uma reportagem como a que ontem passou na TVI, sobre crianças portuguesas com paralisia cerebral que têm que se deslocar a um país do 3º mundo (Cuba) em busca de um tratamento que as autoridades médicas lusas consideram talvez demasiado dispendioso para ser dispensado a meros danos colaterais da guerra de classes. Parafraseando uma das minhas anedotas preferidas:
- “Tiveste o azar de nascer com paralisia cerebral?” (pergunta o sarcástico Deus da religião do capital) “Hmm. E um BI português, tens?”,
- “Isso não, felizmente”, responde o infeliz,
- “Então - zbling! - toma lá um.”
30.11.07
29.11.07
Eduardo Galeano
"Noutros tempos, a polícia funcionava ao serviço de um sistema produtivo que precisava de mão-de-obra abundante e dócil. A polícia castigava os sornas e os seus agentes metiam-nos nas fábricas a golpes de baioneta. Assim, a sociedade industrialeuropeia proletarizou os camponeses e pôde impor, nas cidades, a disciplina do trabalho. Como pode impor-se, agora, a disciplina da desocupação? Que técnicas de obediência obrigatória podem funcionar contra as crescentes multidões que não têm emprego nem nunca o terão? Que fazer com os náufragos, uma vez que são tantos, para que os seus bracejos não ponham a balsa a pique? [...]
Em 1997, por cada cem dólares negociados em divisas, apenas dois dólares e meio tiveram alguma coisa a ver com transações de bens e serviços. [...] Em 1995, apenas três das dez maiores fortunas do Japão estavam ligadas à economia real. Os outros sete multimilionários eram grandes especuladores. [...]
O desemprego multiplica a delinquência e os salários humilhantes estimulam-na. Nunca teve tanta actualidade o provérbio que diz: "O esperto vive do tolo e o tolo do trabalho". Em contrapartida já ninguém diz, porque ninguém acreditaria, "trabalha e prosperarás". O direito laboral está a reduzir-se ao direito de trabalhar pelo que quiserem pagar-te e nas condições que te quiserem impor. [...] O desenvolvimento da tecnologia não está a servir para multiplicar o tempo de ócio e os espaços de liberdade, mas está sim a multiplicar a desocupação e a semear o medo. É universal o pânico perante a possibilidade de receber a carta que lamenta comunicar-lhe que nos vemos obrigados a prescindir dos seus serviços devido à nova política de custos, ou devidoà inevitável reestruturação da empresa, ou porque sim, que nenhum eufemismo alivia o fuzilamento. [...] O funcionário ou o operário que tem trabalho deve agradecer o favor que alguma empresa lhe faz, permitindo-lhe perder a alma, dias após dia, carne de rotina, no escritório ou na fábrica. Encontrar trabalho, ou mantê-lo, embora sem férias, nem reforma, nem nada, e apesar de ser a troco de um salário de merda, festeja-se como se fosse um milagre." [...]
A tecnologia, que reduz vertiginosamente o tempo de trabalho necessário para a produção de cada coisa, empobrece e subjuga os trabalhadores em vez de os libertar da necessidade e da servidão; o trabalho deixou de ser imprescindível para a reprodução do dinheiro. São muitos os capitais desviados para investimentos especulativos. Sem transformar a matéria, e sem tocar nela, o dinheiro reproduz-se mais fecundamente a fazer amor consigo prórpio." [...]
Apenas um em cada dez trabalhadores tem o privilégio de um emprego permanente, a tempo inteiro, nas quinhentas empresas americanas de maior dimensão. Em cada dez novos empregos disponibilizados na Grã-Bretanha, nove são precários. A história está a dar um salto de dois séculos, mas para trás: a maioria dos trabalhadores não tem, no mundo actual, estabilidade laboral nem direito a indemnização por despedimento; e a insegurança laboral faz cair os salários. Seis em cada dez norte-americanos recebem salários inferiores aos salários de há um quarto de século, apesar de nestes vinte e cinco anos a economia dos EUA ter crescido 40%:" [...]Os países pobres estão metidos, de alma e copração, no concurso universal do bom comportamento, para ver quem oferece salários mais raquíticos e maior liberdade para envenenar o meio ambiente. Os países competem entre eles para seduzir as grandes empresas multinacionais. As melhores condições para as empresas são as piores condições para o nível dos salários, da segurança no trabalho e da saúde da Terra e das pessoas."
De pernas para o Ar, tradução de Margarita Correia, Ed. Caminho.
Em 1997, por cada cem dólares negociados em divisas, apenas dois dólares e meio tiveram alguma coisa a ver com transações de bens e serviços. [...] Em 1995, apenas três das dez maiores fortunas do Japão estavam ligadas à economia real. Os outros sete multimilionários eram grandes especuladores. [...]
O desemprego multiplica a delinquência e os salários humilhantes estimulam-na. Nunca teve tanta actualidade o provérbio que diz: "O esperto vive do tolo e o tolo do trabalho". Em contrapartida já ninguém diz, porque ninguém acreditaria, "trabalha e prosperarás". O direito laboral está a reduzir-se ao direito de trabalhar pelo que quiserem pagar-te e nas condições que te quiserem impor. [...] O desenvolvimento da tecnologia não está a servir para multiplicar o tempo de ócio e os espaços de liberdade, mas está sim a multiplicar a desocupação e a semear o medo. É universal o pânico perante a possibilidade de receber a carta que lamenta comunicar-lhe que nos vemos obrigados a prescindir dos seus serviços devido à nova política de custos, ou devidoà inevitável reestruturação da empresa, ou porque sim, que nenhum eufemismo alivia o fuzilamento. [...] O funcionário ou o operário que tem trabalho deve agradecer o favor que alguma empresa lhe faz, permitindo-lhe perder a alma, dias após dia, carne de rotina, no escritório ou na fábrica. Encontrar trabalho, ou mantê-lo, embora sem férias, nem reforma, nem nada, e apesar de ser a troco de um salário de merda, festeja-se como se fosse um milagre." [...]
A tecnologia, que reduz vertiginosamente o tempo de trabalho necessário para a produção de cada coisa, empobrece e subjuga os trabalhadores em vez de os libertar da necessidade e da servidão; o trabalho deixou de ser imprescindível para a reprodução do dinheiro. São muitos os capitais desviados para investimentos especulativos. Sem transformar a matéria, e sem tocar nela, o dinheiro reproduz-se mais fecundamente a fazer amor consigo prórpio." [...]
Apenas um em cada dez trabalhadores tem o privilégio de um emprego permanente, a tempo inteiro, nas quinhentas empresas americanas de maior dimensão. Em cada dez novos empregos disponibilizados na Grã-Bretanha, nove são precários. A história está a dar um salto de dois séculos, mas para trás: a maioria dos trabalhadores não tem, no mundo actual, estabilidade laboral nem direito a indemnização por despedimento; e a insegurança laboral faz cair os salários. Seis em cada dez norte-americanos recebem salários inferiores aos salários de há um quarto de século, apesar de nestes vinte e cinco anos a economia dos EUA ter crescido 40%:" [...]Os países pobres estão metidos, de alma e copração, no concurso universal do bom comportamento, para ver quem oferece salários mais raquíticos e maior liberdade para envenenar o meio ambiente. Os países competem entre eles para seduzir as grandes empresas multinacionais. As melhores condições para as empresas são as piores condições para o nível dos salários, da segurança no trabalho e da saúde da Terra e das pessoas."
De pernas para o Ar, tradução de Margarita Correia, Ed. Caminho.
25.11.07
21.11.07
20.11.07
John Brough - Poems from the Sanskrit
My lord, since you have banished Poverty
From this fair land, I feel its my duty
To lay an information that the outlaw
Has taken refuge in my humble home.
*****
My best respects to Poverty,
The master who has set me free:
For I can look at all the world,
And no-one looks at me.
****
Most men can see another’s faults;
Another’s virtues some can see;
And there are those who see their own
Shortcomings. Yes? – Well, two or three.
*****
If a professor thinks what matters most
Is to have gained an academic post
Where he can earn a livelihood, and then
Neglect research, let controversy rest,
He’s but a petty tradesman at the best,
Selling retail the work of other men.
(Kalidasa)
From this fair land, I feel its my duty
To lay an information that the outlaw
Has taken refuge in my humble home.
*****
My best respects to Poverty,
The master who has set me free:
For I can look at all the world,
And no-one looks at me.
****
Most men can see another’s faults;
Another’s virtues some can see;
And there are those who see their own
Shortcomings. Yes? – Well, two or three.
*****
If a professor thinks what matters most
Is to have gained an academic post
Where he can earn a livelihood, and then
Neglect research, let controversy rest,
He’s but a petty tradesman at the best,
Selling retail the work of other men.
(Kalidasa)
17.11.07
16.11.07
Cinco filmes,
pergunta-me o Henrique. Nada mais fácil:
"Sanshô Dayu" - Mizoguchi
"O Intendente Sanshô" - Mizoguchi
"Sanshô, the Bailiff" - Mizoguchi
"Sansho Dayu – Ein Leben ohne Freiheit" - Mizoguchi
"L'intendente Sansho" - Mizoguchi
(e passo a bola ao Major Tom (Do you hear me?), à Esteva, à Isabela, ao PCD e ao viriato.)
"Sanshô Dayu" - Mizoguchi
"O Intendente Sanshô" - Mizoguchi
"Sanshô, the Bailiff" - Mizoguchi
"Sansho Dayu – Ein Leben ohne Freiheit" - Mizoguchi
"L'intendente Sansho" - Mizoguchi
(e passo a bola ao Major Tom (Do you hear me?), à Esteva, à Isabela, ao PCD e ao viriato.)
15.11.07
Um país de prosadores
Portugal, um país de poetas, repete-se mecanicamente, depois de se ter auscultado a história da literatura portuguesa. Não deixa de haver alguma verdade nisso, se pensarmos que Camões, Cesário, Pessanha, Pessoa, Sena, Herberto, J. M. Magalhães, etc. não têm equivalente no campo da prosa (apesar de António Vieira, Camilo, Eça, Brandão, Agustina…) e que alguma da melhor ficção nacional até foi escrita por poetas.
Mas a julgar pela blogosfera, que é hoje um verdadeiro laboratório de escrita, o panorama parece estar a mudar. Se a blogosfera não me revelou (até hoje) nenhum poeta interessante, o mesmo não se pode dizer da prosa. Não é preciso ser um rato de blogosfera (eu, que só visito regularmente uns dez blogues, estou muito longe disso) para perceber que há imensa gente anónima a escrever bem, e quando digo escrever bem não estou a falar de correcção gramatical, nem sequer de elegância; mas sim de uma prosa tensa, espirituosa, inventiva. Visitando alguns blogues, fica-se com a sensação de que a melhor prosa portuguesa actual não está nas livrarias (sob a forma de livro ou revista) mas on-line. Claro que a boa prosa não basta para fazer um escritor interessante (a menos que o leitor se satisfaça plenamente com autocomplacências estilísticas à la Henry James); é também importante ter alguma coisa para dizer. Infelizmente, muitos desses talentosos prosadores da blogosfera (quase todos no campo político da direita, curiosamente) perdem-se bastante em chalaças inócuas ou em meditações parvas sobre o penteado do actor X, por exemplo, receando talvez passar por enfadonhos ou desagradáveis. (E no entanto, haverá coisa mais prejudicial para um candidato a escritor do que o receio de desagradar?) Com isso, a superficialidade acaba por dominar e empestar tudo, tornando inofensiva a inteligência (que é tanto mais interessante, penso, quanto mais destabilizadora). Claro que a ligeireza decorativa, o witticism desta espécie de andróginos de salão (para tomar de empréstimo a terminologia de C. Paglia) tem o seu encanto e chega a ser irresistível; e também não se pode dizer que traga mal ao mundo o facto de alguém preferir escrever sobre a realidade tal como lhe chega filtrada pelas revistas e jornais de doçaria (que são quase todos, como sabem). Mas às vezes sente-se a falta (ou eu pelo menos sinto) de uma certa gravidade, ou de um confronto com realidades menos açucaradas. No fim de contas, o século XVIII ficou famoso pelos seus salões, mas não foi desse espaço lúdico e glamoroso que saíram os grandes espíritos que incendiariam a imaginação da Europa.
Mas o dado importante, e que gostaria de sublinhar, é que existe mais talento literário em Portugal do que poderia supor quem só folheia montras de livraria. Uma constatação, já agora, que reforça a minha convicção (intrinsecamente política) de que o talento (e mormente o bom-senso) está mais bem distribuído do que à direita se quer acreditar. (As ilações políticas desta afirmação são demasiado óbvias, e os meus leitores demasiado inteligentes (como não?), para que valha a pena perder tempo a explicá-las.) Resta acrescentar que essa minha convicção foi de certo modo “confirmada” por uma história lida num blogue, com a qual iniciarei uma nova rubrica, denominada “Posts Que Fazem Inveja” (ver post seguinte).
Quanto à poesia, e só para concluir, não se percebe se ainda interessa a alguém com menos de 35 anos. A avaliar pelo deserto, blogosférico e editorial, dir-se-ia que não; que são cada vez menos os candidatos a poetas, e cada vez mais insulsos. É caso para perguntar se daqui a 20 anos não se aplicará ao remanescente dos leitores de poesia a mesma incredulidade com que hoje ouvimos falar de extravagâncias ultra-minoritárias como o train spotting, a necrofilia ou o coleccionismo de polainas. Quem sabe?
Mas também não se perderá grande coisa. Ou perderá?
Mas a julgar pela blogosfera, que é hoje um verdadeiro laboratório de escrita, o panorama parece estar a mudar. Se a blogosfera não me revelou (até hoje) nenhum poeta interessante, o mesmo não se pode dizer da prosa. Não é preciso ser um rato de blogosfera (eu, que só visito regularmente uns dez blogues, estou muito longe disso) para perceber que há imensa gente anónima a escrever bem, e quando digo escrever bem não estou a falar de correcção gramatical, nem sequer de elegância; mas sim de uma prosa tensa, espirituosa, inventiva. Visitando alguns blogues, fica-se com a sensação de que a melhor prosa portuguesa actual não está nas livrarias (sob a forma de livro ou revista) mas on-line. Claro que a boa prosa não basta para fazer um escritor interessante (a menos que o leitor se satisfaça plenamente com autocomplacências estilísticas à la Henry James); é também importante ter alguma coisa para dizer. Infelizmente, muitos desses talentosos prosadores da blogosfera (quase todos no campo político da direita, curiosamente) perdem-se bastante em chalaças inócuas ou em meditações parvas sobre o penteado do actor X, por exemplo, receando talvez passar por enfadonhos ou desagradáveis. (E no entanto, haverá coisa mais prejudicial para um candidato a escritor do que o receio de desagradar?) Com isso, a superficialidade acaba por dominar e empestar tudo, tornando inofensiva a inteligência (que é tanto mais interessante, penso, quanto mais destabilizadora). Claro que a ligeireza decorativa, o witticism desta espécie de andróginos de salão (para tomar de empréstimo a terminologia de C. Paglia) tem o seu encanto e chega a ser irresistível; e também não se pode dizer que traga mal ao mundo o facto de alguém preferir escrever sobre a realidade tal como lhe chega filtrada pelas revistas e jornais de doçaria (que são quase todos, como sabem). Mas às vezes sente-se a falta (ou eu pelo menos sinto) de uma certa gravidade, ou de um confronto com realidades menos açucaradas. No fim de contas, o século XVIII ficou famoso pelos seus salões, mas não foi desse espaço lúdico e glamoroso que saíram os grandes espíritos que incendiariam a imaginação da Europa.
Mas o dado importante, e que gostaria de sublinhar, é que existe mais talento literário em Portugal do que poderia supor quem só folheia montras de livraria. Uma constatação, já agora, que reforça a minha convicção (intrinsecamente política) de que o talento (e mormente o bom-senso) está mais bem distribuído do que à direita se quer acreditar. (As ilações políticas desta afirmação são demasiado óbvias, e os meus leitores demasiado inteligentes (como não?), para que valha a pena perder tempo a explicá-las.) Resta acrescentar que essa minha convicção foi de certo modo “confirmada” por uma história lida num blogue, com a qual iniciarei uma nova rubrica, denominada “Posts Que Fazem Inveja” (ver post seguinte).
Quanto à poesia, e só para concluir, não se percebe se ainda interessa a alguém com menos de 35 anos. A avaliar pelo deserto, blogosférico e editorial, dir-se-ia que não; que são cada vez menos os candidatos a poetas, e cada vez mais insulsos. É caso para perguntar se daqui a 20 anos não se aplicará ao remanescente dos leitores de poesia a mesma incredulidade com que hoje ouvimos falar de extravagâncias ultra-minoritárias como o train spotting, a necrofilia ou o coleccionismo de polainas. Quem sabe?
Mas também não se perderá grande coisa. Ou perderá?
14.11.07
Nisso é como o átomo, ou a escravatura
"One of the clearest lessons of the last few decades is that capitalism is indestructible."
Slavoj Žižek
Slavoj Žižek
13.11.07
Lapidário # 6
"I still think novels are much more interesting than poems - a novel is so spreading, it can be so fascinating and so difficult. I think they were just too hard for me. I've said somewhere that novels are about other people and poems are about yourself. I think that was the trouble, really. I don't know enough about other people, I don't like them enough."
Philip Larkin, Required Writing
Philip Larkin, Required Writing
The Clash - Lost In The SuperMarket
I'm all lost in the supermarket
I can no longer shop happily,
I came in here for that special offer
Guaranteed Personality
I wasn't born so much as I fell out
Nobody seemed to notice me
We had a hedge back home in the suburbs
Over which I never could see
I heard the people who lived on the ceiling
Scream and fight most scarily
Hearing that noise was my first ever feeling
That's how it's been all around me
(chorus)
I'm all tuned in, I see all the programmes
I save cupons from packets of tea
I've got my giant hit discoteque album
I empty a bottle and I feel a bit free
The kids in the halls and the pipes in the walls
Make me noises for company
Long distance callers make long distance calls
And the silence makes me lonely
(chorus)
And it's not here
It disappear
Subscrever:
Mensagens (Atom)



