12.11.07

11.11.07

O Grunho Português em Todo o seu Esplendor

Quando a comunidade científica receava que as alterações climáticas por que Portugal passou desde o 25 de Abril pudessem conduzi-lo à extinção, ao reduzir-lhe o habitat a meia dúzia de reservas suburbanas e rurais, eis que das brumas da blogosfera se ergue, tão alarve e cavernícola como sempre, o Grunho Português, em todo o seu esplendor. Mal andámos todos – percebe-se agora – quando em vão o buscávamos a partir dos seus visos identificativos tradicionais – penteado à Futre, mindinho em garra de gato, palito nos dentes, mão viajeira entre bigode e colhoal – sem pensarmos que também o grunho evolui e se refina, se espiritualiza, por assim dizer, e já acede à informática, e já lê não só a Bola mas também a Cigar e a CG e até – pasme-se – Castelo Branco.
É uma descoberta, ou redescoberta, esta, que enche de júbilo toda a comunidade científica. Quando o julgávamos perdido para sempre, eis de volta o nosso querido grunho, tão nacional como a rotunda ou o galo de Barcelos. E maravilhemo-nos com a sua invejável vitalidade e discernimento adaptativo, que lhe permitiu sobreviver através do astucioso processo da camuflagem.
Mas por muito que o grunho se envernize, e viaje, e aprenda a esconder num acesso de tosse o regalado arrotozinho, se lhe aproximamos da boca o grunhómetro detectamos de imediato a subida do nível do azeite. Pois a única maneira de identificar seguramente a presença do grunho actual é através dos ruídos vocais que emite, mais do que pelo comportamento. À primeira vista pode não parecer, mas neste grunho do século XXI está inteirinho o nosso bem conhecido grunho oitocentista: o marialvismo saloio, o arcaísmo intelectual (combinado com o deslumbramento pelas novidades do mundo material – estrangeiras, of course), o reaccionarismo patológico e ultramontano, o humor rústico e excluidor, censor de todas as diferenças, o machismo provinciano, o gregarismo rufião, a sensibilidade saponácea, a autocomplacência calhorda e possidónia, a boçalidade ruidosa.
E não há nada que mais faça subir o azeite no grunhómetro do que o discurso do grunho a respeito de sexo. Pois o grunho é uma criatura a quem a sexualidade dos outros faz comichão. Ele há coisas “que lhe fazem espécie”, que “mexem com ele”, para usar expressões vernaculamente grunhas, e essas coisas são as coisas que ele não compreende. Ora, como o grunho só aceita o que compreende e compreende pouco (porque, por muito que viaje, nunca sai de si), o grunho manifesta-se em todo o seu esplendor sempre que se dispõe a eructar censuras e pilhérias sobre tudo o que é diferente do que lhe ensinaram ou ele aprendeu, na sua pouca escola. E nada incomoda mais o grunho do que o facto de nem toda a gente se comportar como ele. E quando esse comportamento incide sobre sexo, os ruídos emitidos pelo grunho elevam o azeite no grunhómetro a alturas estratosféricas.
Congratulemo-nos, então, por verificarmos vivo o que julgávamos extinto, pois nada enriquece mais o mundo do que a biodiversidade, e por sabermos que a espécie grunhídea conseguiu garantir – por quantas décadas mais? – o seu nicho ecológico na grande cadeia do ser.

8.11.07

Grandes Manchetes de Amanhã # 10 (2031)

IMPLEMENTADA NA UNIÃO EUROPEIA A SEMANA DE TRABALHO DE 25 HORAS


A partir do próximo dia 1 de Janeiro passa a ser proibido trabalhar mais de 25 horas por semana na UE. A medida, inserida no programa do Partido do Ócio, vencedor das primeiras eleições legislativas europeias, visa, nas palavras do primeiro-ministro, Julien Lafargue, "proteger a família e a vida privada" dos cidadãos europeus.

Negativland - "Natural Thing"

(Descoberto via FRENESI)

6.11.07

VICTIMS OF THE DANCE

Corria o Inverno de oitenta e seis, corria
atrás de nós, que aprendíamos aos poucos
o prestígio do estilo, o fervor da negação.
Os livros começavam a doer, percutiam
como pedras no estômago, cavavam grandes
fomes, a vontade de não ser como os demais.

Que sentimentos eram esses, quase novos,
quando as vozes já rodavam na paleta
mais sombria, do azul para o lilás,
terminando no negrume do vivido,
no mutismo que acendíamos em charros?
Que promessas nos lesavam tão depressa?

Sem emprego para o sonho, nas traseiras
do deserto, a custo decifrávamos a arte
de sorrir. Confundíamos beleza com justiça,
segurança com sarcasmo, tolamente,
no tempo em que falávamos ao frio,
os pés contra a parede do mosteiro.

Nos livros presumíamos a sorte dum esteio
singular, barricadas de papel contra canhões
de frases frias: a narcose do sucesso,
o redondo banditismo da razão, a pujança
numerária, pessoal, dos tubarões,
o respeito dos canalhas e dos parvos.

Hoje, se nos vemos, ocultamos a vergonha
no sorriso do bebé, perguntamos se já diz
o que é suposto com dois anos de infortúnio:
aquele “puta que pariu a minha vida”,
que nós já só usamos contra colectores
de impostos, pisadelas, futebóis.

5.11.07

Dorothea Lange

Migratory Cotton Picker, 1940

Homem contente, homem culpado

"El hombre puede juzgarse a sí mismo sólo de duas maneras: considerar que está definitivamente en lo correcto o considerar que es definitivamente culpable. Se considera en lo correcto quien no quiere cambiar de vida y quien emplea su razón para justificar lo que ha pasado, y se considera culpable quien aspira al perfeccionismo y emplea su razón para conocer lo que debe ser."

Tolstoi, Diarios (1847-1894), Traducción de Selma Ancira.

"Bisogna lavorare, e lavorando uno ... lavora!"

"Mio nonno fava i mattoni, mio babbo fava i mattoni, fazzo i mattoni anche me... ma la casa mia dov'è?"

Amarcord - Federico Fellini

4.11.07

Equívocos

O universo da cultura popular favorece naturalmente o equívoco. Depois de ter visto o documentário (muito fraco, por sinal) de Scorsese sobre Bob Dylan, não me restam grandes dúvidas de que o maior desses equívocos tem o nome do cantor (?) americano. Apesar de não ter voz nem saber cantar, de como instrumentista não passar de um amador tosco e displicente (aquela harmónica! aquela guitarra! - patético), de escrever umas cançõezitas monótonas e desgarradas, iluminadas unicamente por um ou outro verso mais sonoro e franciú, o fanhoso Dylan conseguiu durante décadas confundir-se como um estrela mundial.
Este self-made myth é bem a prova de como o talento não passa de um estorvo; de como duas qualidades bastam para se singrar no mundo da cultura pop: fé em si próprio e desfaçatez (como no mundo da política, exactamente); possuir, enfim, aquilo a que se chama carisma. Essa luzinha basta para arrastar multidões de gente anémica e apagada, infantilizada.

23.10.07

Sem dúvida, e fazem sexo 14 vezes por semana, em média.

"Leitura: 57 por cento dos portugueses dizem ler livros."
Público, 23 Out. 07

17.10.07

Levanta-te e Ri

Combater a pobreza? Nada mais fácil!

Segundo fontes anónimas da Campanha Pobreza Zero, as próximas iniciativas contra a pobreza serão as seguintes:

Uma Queca Contra a Pobreza - 19 de Outubro.
Coçar a Cabeça Contra a Pobreza - 5 de Novembro.
Beber um Copo de Água Contra a Pobreza - 9 de Nov.
Fazer uma Chamada Telefónica Contra a Pobreza - 21 de Nov. (Com patrocínio da TMN)
Piscar os Olhos Muito Rapidamente Contra a Pobreza - 6 de Dez.
Comer um Sashimi de Lavagante contra a Pobreza - 12 de Dez.
Abanar Compungidamente a Cabeça Contra a Pobreza - 21 de Dez.

16.10.07

A brasilófilos e afins

"PÔXA, A GENTE ASSIM SE SENTE TRISTE"


“Eu tenho 14 anos. Eu vou falar aqui é de uns colegas que morreu. Queria apenas se o matador daqui desse uma chance à gente, que não matava mais ninguém. Eu peço a ele, por favor vocês, deputados, assim governador, eu não sei, ajuda a gente, por favor, porque a gente tá precisando. Eu tinha um colega que ele morreu ali, aqui na praça mesmo, ali, em frente um bar, só por causa duma camisa. O meu colega, ele tava com frio, que é porque a gente dormia na rua. Esses policiais, eles tá ficando ruim com a gente, eles gosta é de bater na gente, torturar a gente. Pôxa, a gente assim se sente triste, pôxa, ninguém faz nada pela gente, algumas pessoas é que ajuda a gente. Os policiais pega a gente à toa aqui, se a gente dormir na praça aqui, eles taca água. Os bandidos próprio eles tá com a polícia. Pôxa, se a gente dormir aqui na praça eles quer matar, as polícias vê e não faz nada, os policiais mesmo ajuda. Agora eu vou falar é de um colega meu, que morreu, tava eu e os colegas meu na praça, sentado, aí de repente veio a polícia, a gente não tava fazendo nada, a gente tava só brincando perto de uma estátua que tem na praça. Aí, pôxa, coitado da gente, a gente não tava fazendo nada, o polícia chegou com a sua patrulha, pegou meu colega, ele tirou o revólver, aí deu um tiro no meu colega à toa. Veja só, à toa! Deu um tiro no meu colega à toa. Aí outro colega meu correu, aí todo o mundo correu. E eu vou falar é de outro colega que morreu. Ele morreu foi na outra praça baleado legal, não teve nem tempo de respirar nem nada. Quando a gente foi ver, ele já estava morto. Aí, quem foi?, quem foi? E os policiais, pôxa desse jeito, é matando a gente, a gente não tá fazendo nada, não tá xingando ninguém, a gente pega assim nos bar é porque a gente tem fome. Aí chegou um cara chamado de matador, mão branca, aí chegou o mão branca. O mão branca começou a matar a gente assim à toa. Pôxa, esse mão branca, eles tinha que dar uma chance prá gente. Meus colegas, eles tá morrendo tudo. Eu já tive preso muitas vezes. Aí os policiais pegava a gente, começava a torturar, aí eles queimava a gente de cigarro, aí é fazer uma porção de coisa, a gente ficar assim de braço para cima, assim tacava água na gente, na mão da gente aí, olha só, dói, fazia a gente comer cocó, comer barata. Pôxa, a gente já sofremos muito, o senhor tem que ver. É que os filhos deles eles não faz isso. Agora, com a gente, eles quer espancar. Aí falam assim, se você falar para o juiz, aí eu vou te matar, aí a gente fica tudo com medo, aí a gente não fala pró juiz. Que é porque eles, se a gente falar pró juiz, aí o juiz vai mandar eles embora. Aí eles tem família, tem isso tem aquilo para criar, né? Aí eles chega prá gente e ameaça a gente. Eu tou na rua que é porque a minha mãe ganha pouco, é não dá, eu tenho é três irmãos, aí não dá pra sustentar a gente. O meu padrasto ganha pouco. A gente é sofrer mesmo, é sofredor. Os policiais às vezes, eles ameaça a gente, eles manda a gente roubar pra eles, se a gente não roubar pra eles eles quer matar a gente, é na madrugada, quer fazer uma porção de coisas com a gente, eles quer é estuprar e gente.”

In Vidas Caídas, José Amaro Dionísio, Antígona, 1993

14.10.07

Clichés de Chusseau Flaviens # 2

Intelectuais Portugueses

Clichés de Chusseau Flaviens # 1

Deputado do Partido Regenerador em Acção , c. 1909

Adeus ao Porto

Ruas sem peões e lojas fechadas; a melhor arquitectura urbana portuguesa reduzida a uma ocupação de rés-do-chão, com uma perspectiva de teias de aranha e vidros sujos à espera do infeliz que se atreva a erguer os olhos para os primeiros, os segundos, os terceiros andares; jardins desmantelados ou entregues à fúria vandalizadora dos excluídos; arruamentos de lixo e entulho; escombros lado a lado com futuros escombros; um quadro humano feito de horrores provincianos, de olhares saloios, de pavorosa torpeza física e mental – aquela que foi em tempos a mais bela (e até a mais dinâmica) cidade portuguesa não passa hoje duma cratera histórica, pungente, calcorreada apenas por curiosos de pedra devoluta, de azulejo partido, de varandins enferrujados. Não resta sequer um café, uma livraria, um jardim onde apeteça estar. Passear hoje no Porto, num sábado à tarde, é descobrir uma cidade em colapso, uma cidade desertada pela peste, um cenário para filmes de temática apocalíptica ou eventos festivaleiros.

Um dia, o Porto servirá como case-study para quem quiser investigar como se destrói uma cidade, uma paisagem, um país. E se não se demorar muito, o investigador poderá encontrar ainda vivos alguns dos principais responsáveis, e colher da boca de Fernando Gomes, Nuno Cardoso e Rui Rio os mais probantes depoimentos. A estes futuros vultos da toponímia portuense, verdadeiros vândalos autárquicos, haveria que pedir contas, se Portugal fosse um país onde tais coisas se peçam. Não interessa. É tarde. E ao Porto (nunca pensei vir a dizer isto) apetece nunca mais voltar.

3.10.07

Galeria de Fantasmas # 4

Cromer's amateur, Organ Grinder on street with children passing , c.1850

1.10.07

Galeria de Fantasmas # 3



Thomas Annan, Saltmarket from Bridgegate, Glasgow, 1868